ADMINISTRAÇÃO  


Certificada, produção do papel tem valores sustentáveis ( 23/12/2014 )

Para os pequenos, uma descoberta fascinante e também a primeira lição incompleta que recebem sobre aquele que será seu companheiro vida afora: ‘o papel vem da árvore’. A frase, que é praticamente senso comum, camufla e distorce verdades sobre a origem do papel, servindo de base para campanhas e ações falaciosas para a promoção de outros setores e produtos. Uma premissa falsa, que mais engana do que informa o consumidor.
O papel vem sim da árvore, especificamente da celulose da madeira, que é a principal matéria-prima de todos os papéis, sejam os utilizados em impressos e para escrever, nas embalagens ou em produtos sanitários. Mas, o ciclo de produção de papel começa antes disso, se inicia com o plantio da floresta. Exatamente. Assim como se produz o arroz ou o feijão, há grandes e pequenas propriedades rurais que cultivam florestas com variedades como eucalipto e pinus, destinadas à produção de madeira para vários setores, entre eles os de celulose e papel. Estas árvores serão colhidas e industrializadas, dando lugar à nova plantação.
“O papel é um produto natural, renovável, reciclável, biodegradável, incinerável e ainda tem muitos outros atributos favoráveis à Natureza”, escreve Celso Foelkel, engenheiro agrônomo, especialista e estudioso em florestas e utilizações dos eucalyptus e pinus, no artigo Prosperidade, consumo consciente e o papel do papel, disponível no site do autor.
A origem em florestas plantadas é um dos principais atributos da sustentabilidade do papel defendidos e divulgados pelo setor de árvores para evitar mensagens que erroneamente associam redução do consumo de papel a ‘salvar árvores’. “O conceito já é conhecido por parte dos consumidores finais, mas precisa ser cada vez mais disseminado”, avalia a presidente executiva da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Elizabeth de Carvalhaes, destacando que o ciclo de vida do papel é extremamente ligado à natureza.
No entanto, esta relação de intimidade e afinidade entre a produção industrial do setor de árvores plantadas e o meio ambiente, por si só, não é harmônica e natural, exige compromissos. “Hoje temos conhecimento científico e tecnológico para ter impactos mínimos e absorvíveis nas regiões de florestas plantadas, que podem melhorar a biodiversidade”, afirma Celso Foelkel, observando que qualquer ação humana e os hábitos de consumo deixam rastros ambientais. Porém, a forma de se relacionar com o meio ambiente é determinante e diferencia a exploração da preservação.
Certificação
Para assegurar que a atividade florestal é voltada à sustentabilidade e capaz de produzir impactos mínimos ou positivos ao meio ambiente existem as certificações. Pela definição apresentada pelo Sistema Nacional de Informações Florestais, órgão do governo federal: “Certificação é um processo voluntário ao qual se submetem algumas empresas para atestar que seus produtos e sua produção seguem determinados padrões de qualidade e sustentabilidade. A Certificação florestal baseia-se nos três pilares da sustentabilidade: ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável”.
No Brasil, são utilizados dois certificados: o internacional Forest Stewardship Council (FSC) e o Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor), sistema endossado pelo Programme of Endorsement for Forest Certification (PEFC). Conforme dados apresentados no documento Ibá 2014, o Brasil tinha 7 milhões de hectares de florestas certificadas em 2013 e ocupava o 5º lugar no ranking de área certificada do sistema FSC, ficando atrás somente do Canadá, Rússia, Estados Unidos e Suécia. Ou seja, mais de 90% dos 7,6 milhões de hectares de área plantada de florestas no Brasil têm certificação, atestando manejo florestal responsável, “que compreende processo produtivo de forma ecologicamente adequada, socialmente justa e economicamente viável, dentro do cumprimento de todas as leis vigentes”.
A preservação e o compromisso com o meio ambiente e a sustentabilidade do planeta têm mobilizando a comunidade internacional e induzido empresas e governos a mudanças de comportamento. “A certificação florestal é uma tendência mundial e uma exigência do mercado comprador de celulose”, enfatiza Celso Foelkel, explicando que as grandes empresas já são certificadas e obedecem a estes padrões de manejo florestal.
A presidente executiva da Ibá diz que as certificações são importantes para a valorização do papel, pois permitem mostrar “que aspectos socioambientais são respeitados nas diversas etapas do processo produtivo, ou seja, que a gestão dos recursos naturais desde a floresta plantada até o produto final gera o menor impacto possível e maximiza os benefícios socioambientais”.
Carbono e aquecimento
As árvores são fundamentais para a vida no planeta, pois através do processo de fotossíntese captam gás carbônico (CO2) e liberam oxigênio (O2). Esta é mais uma lição dos primeiros anos de escola que está ligada à produção do papel e que pode ser aprimorada. “Quanto mais jovem o vegetal, maior a necessidade de energia para crescer, o que, consequentemente, implica em maior absorção de carbono”, afirma Carvalhaes, destacando outro diferencial importante do papel originário das florestas plantadas, sua contribuição para conter os efeitos das mudanças climáticas.
Além disso, de acordo com a Ibá, as plantações florestais são mais eficientes do que as florestas naturais no sequestro de CO2. Segundo a presidente da entidade, como os ciclos entre o cultivo da muda e a colheita, duram em média 7 anos, no caso do eucalipto, e 14 anos, no caso do pinus, as árvores nesses plantios estão em constante crescimento, pois assim que são colhidas, novas mudas são plantadas em seu lugar.
No Brasil, anualmente, as árvores plantadas para fins industriais absorvem 1,67 bilhão de toneladas de CO2 da atmosfera, no processo de fotossíntese, oferecendo contribuição expressiva na mitigação dos efeitos do aquecimento global, conforme o documento Ibá 2014.
Além dos estoques de carbono, cada produto originário de árvores plantadas também pode evitar ou reduzir emissões associadas ao uso de produtos oriundos de matérias-primas fósseis ou não renováveis, por meio do uso de produtos bem manejados, em diferentes etapas da cadeia produtiva. De acordo com dados publicados na segunda edição da Folha da Bracelpa, em 2009, o processo industrial gerava 21 milhões de tonelada de CO2, praticamente um terço do gás absorvido pelas florestas plantas à época (cerca de 64 milhões de toneladas de CO2 por ano), gerando saldo positivo na emissão de gases causadores do efeito estufa.
Conforme Elizabeth de Carvalhaes, as empresas de celulose e papel se aproximam da autossuficiência em energia e é crescente o consumo energético de fontes renováveis, como a biomassa. O reuso de água no processo industrial também é prática no setor, que participa de diversos comitês de bacias hidrográficas. “O objetivo é atingir um balanço ambiental cada vez mais positivo, no qual se destaca a contribuição do setor para o equilíbrio do clima global”.
Preservação
Conforme o relatório referente a 2013, o setor de árvores plantadas contribuiu para a preservação de ecossistemas e a recuperação de áreas degradadas, ao proteger 2,1 milhões de hectares na forma de Reserva Legal (RL), Áreas de Proteção Permanente (APP) e Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN).
Segundo a Ibá, o setor trabalha com o intuito de aprimorar o manejo integrado da paisagem por meio de mosaicos que integram florestas naturais e plantadas e corredores ecológicos, que permitem o livre trânsito dos animais e contribuem para a manutenção dos ecossistemas em condições saudáveis. Os plantios de pinus e eucalipto proveem abrigo, refúgio, alimento e local para reprodução a inúmeras espécies da fauna, ao mesmo tempo em que são enriquecidos por sementes trazidas das matas nativas pelos pássaros. “Com frequência, aves, mamíferos, répteis e outros organismos são atraídos de volta ao habitat de origem. Como um caminho de mão dupla, a sanidade da plantação florestal está associada à preservação do ambiente natural, pois neste vivem os inimigos naturais das pragas que podem causar problemas aos plantios”, acrescenta Carvalhaes.
Outro exemplo que desmistifica a relação do eucalipto com o meio ambiente, é o estudo divulgado em novembro deste ano pela Embrapa, mostrando que o manejo da floresta plantada auxilia na regeneração de florestas nativas. De acordo com o pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, Carlos Cesar Ronquim, o cultivo de eucalipto “pode ser uma boa opção para ajudar na recuperação da cobertura florestal em áreas da propriedade degradadas pela pecuária e agricultura intensivas, oferecendo ainda ao agricultor uma rentabilidade econômica com a venda do eucalipto".
Inovação tecnológica
As demandas pela sustentabilidade são tão grandes como o setor e têm relação estreita com inovação tecnológica. Um exemplo recente é a pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) de Montes Claros que descobriu que o lodo de esgoto pode ser usado como absorvente para a remoção de resíduos da indústria de papel e celulose, sendo uma alternativa sustentável e economicamente viável para substituir o silicato de magnésio no controle do pitch – resíduo do processamento da madeira.

 
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