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Exercício de futurologia - por Vicente Amato Sobrinho * ( 16/12/2016 )

Tradicionalmente, nessa época do ano, eu e milhares de pessoas no Brasil tentamos imaginar o panorama do ano que se aproxima. Há quem trace excelentes visões que ocorrem quase em sua totalidade, excetuando-se a previsão sobre o câmbio, que é a pedra no sapato, tornando os futurólogos mais humildes. No final de 2015, ao escrever o artigo “O Brasil está mudando para melhor” apontei situações que, em boa parte, acabaram se concretizando e me incentivando a prever o futuro para 2017.

Confesso que não está fácil. No curto prazo, não existem boas perspectivas para a economia, que não reage, creio eu devido ao desemprego pavoroso. Das reformas necessárias para equilibrar as contas, poucas deverão ser aprovadas, pois interesses corporativistas predominam na política, que só funciona com moedas de troca.

O equilíbrio da política é fundamental para o aquecimento da economia. Entretanto, estamos longe dessa estabilidade, pois os Poderes parecem estar em guerra declarada, o que desestimula a prática de uma política saudável, com debates democráticos, sem conflitos e com a necessária ponderação.

Muitos políticos estão em polvorosa devido às delações e acordos de leniência das grandes empreiteiras, temendo serem presos, como muitos já foram. Os políticos buscam desesperadamente saídas para amenizar o passado, mas sabem que doravante a farra acabou, pois agora, além da Justiça, o povo está de olho e a impunidade não é mais uma certeza.

Percebe-se que a corrupção tornou-se epidêmica, lamentavelmente, e jogou suas garras para todos os setores políticos e privados, que jamais supunham que seriam punidos exemplarmente. Convém salientar que vários magistrados já seguem a mesma linha do juiz de Curitiba e muitos outros se encherão de coragem para praticar a verdadeira Justiça, como já previ em 2015.

A turma do achismo entende que Temer não chegará até 2018. O impeachment dele foi pedido e sabe-se lá o que vai acontecer. O Supremo Tribunal Federal foi desafiado e um ministro da Corte tirou o presidente do Senado do poder, só que ele não recebeu o Oficial de Justiça. No plenário do STF, a crise institucional foi resolvida de maneira hilária: réu, o presidente do Senado pode continuar no cargo, mas não pode ser presidente do Brasil, em caso de vacância. Só rindo.

Assim, fica fácil entender que a crise política é uma das mais sérias e está longe de ser solucionada. A quebradeira dos Estados e municípios aumentará o desemprego e deixará a população sem nenhuma assistência. Isso não é achismo, infelizmente é pura realidade. Sem perspectivas de política estável para o próximo ano, a economia não demonstrará nenhuma reação expressiva, creio eu, novamente recorrendo ao achismo. Enroladas, as construtoras não mais geram empregos, muito pelo contrário. Os segmentos que gravitam em torno delas também. Antes da Lava Jato essas empresas produziam riquezas incalculáveis, que alimentavam a corrupção de agentes públicos e campanhas dos partidos políticos. Os incautos ainda sonham que tudo voltará à ‘normalidade’ de antes. Mas, a farra acabou e a população não aguenta mais e deve continuar fiscalizando e apoiando todas as medidas que combatam as falcatruas.

Apesar dessa crise prolongada, acredito que alguns setores econômicos devem ser beneficiados. Ao menos aqueles que produzem calmantes e antidepressivos devem crescer 100%. Já que nossa vocação é no mercado de papel, resta-nos focar em nossas competências individuais, apostar na representação coletiva e continuar trabalhando com afinco dentro da legal e leal concorrência. Afinal, independentemente do cenário político-econômico que vier pela frente, o Brasil é maior que qualquer crise. E, isso não é exercício de futurologia!

* Presidente executivo da Andipa, presidente do Sinapel, diretor da FecomercioSP e conselheiro do Sesc

 
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