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Pré-conceito cerceia defesa de autuações indevidas ( 29/02/2016 )

Pré-conceito cerceia defesa de autuações indevidas e setor discute ações

Autuações indiscriminadas e amparadas na generalização de práticas ilícitas no mercado de papel geraram uma enxurrada de processos no estado de São Paulo, que estão pondo em risco as atividades de empresas sérias e tradicionais. Distribuidores associados à Andipa e ao Sinapel e seus advogados participaram de reunião na sede da Federação do Comércio, sobre as dificuldades comuns enfrentadas nas defesas em função dos ‘vícios de origem que estão punindo os justos por não permitir a distinção entre o joio e o trigo, pré-julgando todos os processos do setor como fraudes com papel imune’.

Segundo os advogados há raras exceções de sucesso, ainda que parciais, em que os contribuintes estão conseguindo reverter as autuações. Em geral, todos estão enfrentando dificuldades de defesa no âmbito administrativo da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo e no Tribunal de Impostos e Taxas (TIT), que desconsidera a comprovação de boa-fé e a documentação de operação de compra ou venda de papéis.

Com isso, as empresas estão sendo obrigadas a recorrer ao Judiciário, um caminho oneroso pela exigência de garantia, que é baseada nas autuações hipervalorizadas. Além de demorada, a via judicial requer que sejam desfeitos ‘mal-entendidos’ que originaram as autuações a partir de cassações retroativas de contribuintes que até então tinham os registros federais e estaduais, permitindo-os operar, inclusive com papel imune. Os envolvidos são unânimes ao apontar o cenário: o problema jurídico vira um entrave econômico-financeiro, impondo dificuldades adicionais ao ambiente de negócios já recessivo, que podem fazer fechar empresas e centenas de postos de trabalho.

A iniciativa animou os participantes, que darão continuidade às discussões para buscar soluções conjuntas para a ampla defesa dos contribuintes que seguem com rigor as legislações e boas práticas de mercado. “O esquema de fraude enganou a todos, dando aparente legalidade às operações amparadas nos registros fornecidos pelas autoridades fiscais, como o registro de papel imune na Receita Federal e o Recopi, em São Paulo, além de inscrição ativa“, avalia o sócio da área tributária da LBZ Advocacia, Gustavo Dalla Valle Baptista da Silva, que tem estudado os argumentos e raciocínios aplicados pelos agentes fiscais nas autuações e nos processos.


Para entender o problema

A série de autuações nas operações de compra e venda de papéis começou após descoberto o esquema fraudulento, em investigação realizada pela Receita Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF). Os ilícitos envolveram dezenas de empresas e após rigorosa investigação resultou em ação penal contra 11 pessoas por organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Segundo a denúncia oferecida pela MPF e aceita pela Justiça Federal, o grupo teria ocultado e dissimulado a origem, a movimentação e a propriedade de cerca de R$ 1,1 bilhão proveniente de diversos crimes, como descaminho e sonegação fiscal, entre os anos de 2009 e 2013.

A partir da relação de empresas identificadas no esquema, a Secretaria da Fazenda paulista passou a fiscalizar as operações realizadas com contribuintes do estado. Os nomes envolvidos no esquema fraudulento foram considerados inidôneos e tiveram a inscrição estadual cassada retroativamente, tornando todas as operações irregulares, desconsiderando as condições de cada negociação à época e a lisura do outro contribuinte envolvido. Com isso, os fiscais do estado passaram a autuar as distribuidoras que compraram ou venderam papéis, cobrando destas, também, multas que chegam a até 300% do imposto.

Baseado em falsas premissas, formou-se um pré-conceito considerando improcedentes todos os questionamentos referentes à comercialização de papel no âmbito da esfera administrativa, sem o cuidado da análise documental da defesa. Essa orientação se repete no TIT, onde representantes da Andipa foram recebidos para esclarecer a situação e pedir que os processos contra os distribuidores fossem julgados no rigor da legislação, considerando os fatos de cada situação. Ainda assim, poucos obtiveram êxito e a maioria está discutindo a o assunto no Judiciário.

Os mesmos fatos, na esfera federal redundaram em processo para responsabilização criminal e tributária de um certo número de pessoas e empresas, mas se reconheceu a condição de vítima das distribuidoras sérias do setor. “Diferente do que fez o Ministério Público Federal e a Receita Federal, faltou cuidado para a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo na hora de separar o joio do trigo”, observa o especialista tributário.

 
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