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Fórum discutiu a era das notícias falsas ( 15/05/2017 )

O segmento de distribuição marcou presença no Fórum “O papel da mídia brasileira na era da pós-verdade”, promovido pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), em abril, em São Paulo. O presidente executivo da Andipa, Vicente Amato Sobrinho, participou do evento que reuniu mais de 300 pessoas com palestrantes que apresentaram reflexões sobre temas atuais e relevantes para o fortalecimento dos veículos de comunicação.

O recém-criado termo pós-verdade é definido nos Dicionários Oxford como aquilo que “se relaciona ou denota circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e crença pessoal”. Este fenômeno crescente ganhou força nas universidades e meios de comunicação a partir das eleições presidenciais norte-americanas, quando Donald Trump passou a considerar e repercutir como notícias falsas (fake news) informações da imprensa, especialmente de veículos tradicionais como o The New York Times.

“Trump é a melhor coisa que aconteceu para o jornalismo nos últimos anos. Com suas ideias horrorosas, ele acabou mostrando que existe gente invisível atrás das telas do Facebook que está muito ressentida”, afirmou o filósofo Luiz Felipe Pondé, remetendo a discussão à teoria filosófica de que não existe verdade e sua relação com o poder. Segundo ele, as pessoas consomem e compartilham informações falsas, conscientes ou não, porque concordam com a visão de mundo delas.

A percepção de verdade, mentira, poder e política permeou a palestra do acadêmico e jornalista Eugenio Bucci, que defendeu informações baseadas em fatos verificáveis e comprováveis por qualquer pessoa. Segundo ele, iniciativas de checagem de fatos se baseiam em números, em dados e acontecimentos objetivos e a verificação desses fatos, e do discurso do poder a partir desses fatos, é o expediente da imprensa. “A instituição da imprensa pode representar uma barreira vital e indispensável contra o crescimento de uma era da pós-verdade, de populismos de esquerda e de direita que, em comum, têm o desprezo pelo fato e o combate aos que questionam a lógica do poder”, afirmou Bucci.

O jornalista e ex-ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, afirmou que as notícias falsas sempre existiram, mas agora, com as mídias sociais, são criadas empresas para a divulgação de notícias falsas com fins econômicos ou ideológicos, utilizando recursos de geolocalização de anúncios que remuneram quem tem mais compartilhamentos.

“Pela primeira houve uma interrupção no processo de glamorização das redes sociais”, disse Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), observando que empresas como Google e Facebook passaram a dar explicação sobre o efeito colateral e não-planejado de seus algoritmos. Segundo ele, os anunciantes já se deram conta de que o risco de uma crise reputacional é imenso. Na abertura do evento o presidente da ANER, Fábio Petrossi Gallo, ressaltou que os “boatos virtuais são ameaça à vida e aos negócios e empresas”.

Organizações do mundo todo estão discutindo a era da pós-verdade e instituíram o dia 2 de abril como dia internacional de verificação dos fatos, celebrado pela primeira vez neste ano. Apesar de todo o esforço de conscientização e pela valorização da checagem profissional e comprometida com os fatos, os palestrantes demonstraram preocupação com a tentativa de recorrer à lei para punir as notícias falsas, como prevê a proposta do Projeto de Lei 6812/2017. “Quem define o que é notícia falsa? Para Trump, tudo o que o NYT e a CNN publicam é falso”, destacou Carlos Eduardo Lins da Silva. Para o presidente da ANER, Fábio Petrossi Gallo, “a regulamentação tem o limite da censura”.

“Precisamos combater inverdades com mais jornalismo de mais qualidade”, avaliou Paulo Tonet Camargo, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), ressaltando a importância de questionar os interesses por traz das notícias falsas. Segundo ele, o trunfo dos veículos tradicionais está no posicionamento, já que leitores sabem a quem cobrar em caso de erros e informações equivocadas. “É diferente das redes sociais, onde não há auditoria ou regulamentação de natureza jurídica ou de conteúdo”, completou Tonet.

 
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